E que tal falar da minha profissão?

Bora lá...
RF:"...E o que é que o Senhor faz?"
EU:"Casas e afins, ando no ramo da arquitectura, faço de tudo um pouco, legalizações, projectos de marquises, uns concursos de ideias, vivendas modernas, outras mais antigas, edifícios de habitação colectiva na praia ou na serra, edifícios públicos, enfim, sabe como é...É claro que tenho em conta a qualidade espacial ao nível da luz e do conforto térmico num projecto de uma marquise, é importante, mas sabe que a maioria das pessoas não quer saber disso, quer é bom e barato..."
Eu creio que é uma resposta simples...se estiver num balcão da repartição das finanças de Queluz...
Mas o que é ser arquitecto?
Não sei bem...Acho que tenho uma ideia ou outra mas não estou seguro.
No outro dia fui confrontado com uma opinião de um ex-colega de universidade. Disse-me que se soubesse o que iria ser a realidade de emprego de hoje não tinha realizado este curso, E VOLTA E MEIA TAMBÉM VÃO APARECER GAJAS NUAS...Eu obviamente que lhe dei na cabeça.
Na primeira semana de aulas em 2003 aquando do meu ultimo ano de universidade (meu Deus já passaram quase 3 anos desde o final do curso) ouvia um ex-aluno do então meu "professor" dizendo que o "dito cujo" lhe tinha tirado todo o prazer de fazer arquitectura mas que ainda assim o curso lhe tinha dado um nova visão sobre as coisas, lhe tinha despertado para outra forma de resolver fosse o que fosse.
É assim que me vejo como arquitecto, mais do que isso, como pessoa, com uma necessidade de resolver sempre de forma diferente as questões com que me deparo todos os dias, seja no trabalho ou fora dela...
Tentar seguir o caminho mais longo para chegar a uma proposta básica...acho que é isso que difere os artistas dos comuns mortais...esses pobres coitados...
Como quando vamos a Barcelona e olhamos um Miró ao vivo na Fundaçao e ouvimos comentários:
"Isto até o meu filho fazia..."
Que bom...
Estou ainda a tentar apaixonar-me ainda mais pela arquitectura e sei que vai demorar muito tempo até ser eu a fazer um projecto de uma casa da qual me orgulhe e diga:
" Isto pelo menos vai durar uns bons 50 anos aqui plantado, e os habitantes vao continuar a questionar-se para onde se dirige aquela escada contra a parede...ou aquela janela dentro do armário da casa de banho..."
"Um homem só morre verdadeiramente quando morrerem todos os que o possam recordar..."
Quero acreditar, quero acreditar que um dia vou fazer um espaço para crianças brincarem e divertirem-se, que um dia vou fazer uma casa e pensar um espaço para que uma pessoa se sente numa sala vazia com uma cadeira e possa ler o seu livro preferido, aquele que já leu mais de 43 vezes (pode ser um do Paulo Coelho, isso nao importa...).
Espero que um dia mais tarde possa ler estas palavras e sentir o entusiasmo que julgo que sinto...Quem realmente me conhece e passou e passa por o que é Ser Arquitecto, sabe do que falo.
Acho que existem muitas pessoas assim, mas que têm medo de voar. Nem que nao seja muito alto, mas sim para longe primeiro,
Voem!